domingo, 22 de julho de 2012

O Pequeno Príncipe

…Vem brincar comigo – propôs ele. – Estou tão triste…

Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.

- Ah desculpa – disse o principezinho.

Mas, após refletir, acrescentou:

- Que quer dizer “cativar”?

- Tu não és daqui – disse a raposa. – Que procuras?

- Procuro os homens – disse o pequeno príncipe. – Que quer dizer “cativar”?

- É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. – Significa “criar laços”…

- Criar laços?

- Exatamente – disse a raposa. – Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti.E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

- Começo a compreender – disse o pequeno príncipe. – Existe uma flor… Eu creio que ela me cativou…

… – A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa. – Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.

- É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentará mais perto…

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa. – Se tu vens, por exemplo às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração… É preciso que haja um ritual.

… Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse: – Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse… Quis – disse a raposa. Mas tu vais chorar! – disse ele. – Vou – disse a raposa. – Então, não terás ganhado nada! – Terei, sim – disse a raposa…

…Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua rosa é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo…

… E voltou, então à raposa: – Adeus… – disse ele… – Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê o bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

- O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não se esquecer. – Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu ele, para não se esquecer.

- Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa . – Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…

- Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para não se esquecer.


Trechos do livro: O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry

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