O que devo fazer? A morte me segue, a vida foge.
Ensina-me algo contra esses males: faz com que eu não fuja da morte, que a vida não fuja de mim. Encoraja-me contra as dificuldades, sobre a equanimidade, acerca dos males inevitáveis; relaxa as angústias da minha idade.
Ensina-me que o valor da vida não está na sua duração, mas no uso que dela pode ser feito; que pode acontecer, como acontece com freqüência, que quem viveu muito, muitas vezes, viveu pouco. Dize-me, quando eu estiver por adormecer, “podes não acordar mais”; e, quando eu estiver acordado, “podes não dormir mais”. Dize-me, quando estiver eu saindo, “pode não voltar”; e, quando eu estiver de volta, “pode ser que não saias mais”.
Erras se pensas que apenas na navegação a vida se distancia pouco da morte: em todo lugar essas distância é tênue. A morte não se mostra em todos os lugares, mas em todos os lugares ela está próxima. Dissipa essas trevas e mais facilmente me ensinarás as coisas para as quais já estou preparado. A natureza nos criou dóceis e nos deu uma razão imperfeita, mas capaz de se aperfeiçoar.
Discute comigo sobre a justiça, sobre a piedade, sobre a sobriedade, sobre as duas formas de pudor, aquela que não viola o corpo alheio, bem como a que cuida de si mesmo. Se não me quiseres conduzir por desvios, chegarei mais facilmente à meta a que me dirijo, pois, como diz o famoso trágico: “O discurso da verdade é simples”. Assim, não é preciso complicá-la, pois nada convém menos a um espírito que tem grandes aspirações que essa inferior astúcia.
Pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence á morte. Aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas nos são alheias; só o tempo é nosso.
Aprendendo a viver - Lucius Anneo Sêneca.
(Trechos das Cartas: Da economia do tempo; Da brevidade da vida).

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